.::: Implantodontia :::. Glossário




ENXERTOS ÓSSEOS EXTRA-ORAIS
( Extra-Oral Bone Graft)

Camila Sampaio Barbosa *
Ana Cristina Pereira Lima*
Maria Júlia dos Santos Góis*

Jório Da Escócia Júnior**

*Estudante do curso de odontologia da Universidade de Fortaleza-UNIFOR
**Professor do curso de Implantodontia da Universidade de Fortaleza-UNIFOR


RESUMO

Nos últimos anos, o sucesso da osseointegração tornou a instalação de implantes osseointegrados uma opção viável para o tratamento de diversas situações de edentulismo, uma vez que confere um bom resultado estético e funcional. Entretanto, a falta de osso nos rebordos alveolares tem sido uma grande dificuldade na recuperação dos pacientes devido à ausência de suporte ósseo que apresentam.
Com o advento da técnica de enxertia utilizando osso extra-oral é possível fornecer grandes volumes ósseos para extensas áreas edêntulas, viabilizando a reabilitação oral do paciente.

O objetivo deste trabalho é o de apresentar as características da utilização do osso autógeno extra-oral como material de enxertia em grandes reconstruções dos maxilares. Através de uma revisão na literatura e apresentação de caso clinico, abordaremos as principais diferenças entre áreas doadoras extra-orais como a tíbia, crista ilíaca, fíbula, calota craniana e costela de acordo com as vantagens e desvantagens que apresentam.

Unitermos: implante osseointegrado, enxerto, crista ilíaca, fíbula, calota craniana, costela.

 

Abstract

Osseointegrated dental implants have been considered to be the most esthetical and functional alternative for rehabilitation of edentulous spaces. However, the lack of bone in the alveolar rims has been a great difficulty in the recovery of the patients due to absence of bone support who present.
With the advent of the graft technique using extra-oral bone it is possible to supply to great bones volumes to extensive edentulous spaces, making possible the oral rehabilitation of the patient.
The objective of this work is to present the characteristics of the use of the extra-oral autogenic bone as a material of Transplantation in great reconstructions of jawbone. Through a revision in the literature, we will approach the main differences between extra-oral givers areas as the tibia, hipbone, fibula, skull and rib in accordance with the advantages and disadvantages that present.

Uniterms: osseointegration implants, graft, tibia, iliac crest, fibula, cranium, rib.
Introdução

A falta de osso nos rebordos alveolares tem sido um grande problema na recuperação estético-funcional em pacientes que tenham sofrido traumatismos dentoalveolares, extrações dentárias traumáticas, ausências dentárias congênita, patologias que envolvam os maxilares, além de infecções, sendo esta falta de osso uma das limitações para a reabilitação com implantes, por apresentar um volume ósseo inadequado para a estabilidade inicial. Os enxertos ósseos autógenos são geralmente indicados em combinação com implantes para restauração desses pacientes. Além disso, os pacientes com reabsorção moderada e objetivos protéticos ideais também podem exigir um aumento ósseo.
Segundo MISCH (2000), o objetivo habitual dos enxertos ósseos autógenos é fornecer osso disponível suficiente para permitir a inserção dos implantes endósseos nos maxilares comprometidos, ou sanar as necessidades e os desejos estéticos e/ou protético do paciente com reabsorção moderada. Os enxertos autógenos permitem a inserção do implante endósseo com maior área de superfície, altura, quantidade e localização melhor, sendo obtido de sítios doadores diferentes do próprio corpo e de diferentes formas.

A escolha das possíveis áreas doadoras para reconstrução óssea depende, principalmente, do volume ósseo necessário e do tipo de defeito ósseo. Para pequenas e médias perdas ósseas as áreas intra-orais são o mento, a área retromolar e o túber. Para reconstruções maiores, são áreas doadoras externas o osso ilíaco, a calota craniana, a tíbia, a fíbula e a costela. (KUABARA et al. ,2000)
REVISÃO DE LITERATURA

Enxerto ósseo é a transplantação de um fragmento ósseo de uma parte para outra no mesmo individuo ou entre indivíduos de espécies iguais ou diferentes.Pode-se acrescentar a esta definição a possibilidade de inclusão de substâncias inertes ou não dentro dos defeitos ósseos com a finalidade de ativar ou acelerar a osteogênese.Os enxertos autógenos, também conhecidos como auto-enxertos, são enxertos removidos do próprio paciente. Um osso autógeno recém-extraido é o material ideal. Segundo PETERSON (2000), o enxerto autógeno é considerado o melhor enxerto por possuir células ósseas imunocompatíveis vivas, as quais são essências à fase I da osteogênese. Esse é o tipo de enxerto ósseo mais utilizado em reconstruções maxilofaciais.Segundo OLIVEIRA JR et al. (2002), os enxertos podem ser em bloco, que são peças sólidas tanto do osso cortical quanto do osso medular, ou particulado, sendo principalmente de osso medular. O osso autógeno também pode ser transplantado juntamente com a preservação do suprimento sanguíneo. São chamados retalhos vascularizados ou compostos, que podem ser o pediculado, quando é rodado um retalho com tecido muscular e ósseo (retalho de clavícula com músculo esternocleidomastóideo), ou vascularizado livre quando é feita a dissecação de uma artéria e uma veia, que são transplantadas com o retalho composto de tecido mole e duro. Apesar de serem ideais esses retalhos não proporcionam uma quantidade adequada, nem uma forma compatível com o arco mandibular. Além disso, causam mais deformidade no sítio doador.
Os locais doadores preferidos de osso autógeno extra-bucal incluem a crista ilíaca, a tíbia, a calota craniana e, em proporção menor, a costela e a fíbula.

Crista Ilíaca

De acordo com MISCH (2000), o osso autógeno coletado da crista ilíaca é o local doador de escolha para os enxertos ósseos de defeitos grandes nos maxilares.
A principal vantagem do enxerto da crista ilíaca é o seu amplo volume. A porção externa do enxerto é quase que completamente cortical, com osso esponjoso abundante, na sua parte inferior. Segundo OLIVEIRA JR et al. (2002), o ilíaco é sem dúvida, o osso que oferece a maior quantidade de osso medular, até 15 cm de enxerto cortico-medular, e, às vezes, tem textura comparável à do osso do túber. Também apresenta a vantagem de exigir um tempo cirúrgico menor, que permite a preparação do leito receptor simultâneo à retirada em ambiente hospitalar, com anestesia geral, a presença de uma equipe multidisciplinar, formada pelo cirurgião plástico, ortopedista ou cirurgião geral.
Inicialmente, o paciente é acomodado da melhor forma possível para expor a proeminência da crista óssea. A área retirada escolhida é a parte anterior superior da crista ilíaca. A incisão é feita em planos até o acesso à crista óssea. A remoção do enxerto é realizada por meio de serras tipo Striker ou brocas cilíndricas com baixa rotação e cinzéis, com irrigação abundante e soro fisiológico.
KUABARA et al. (2000) descrevem que o enxerto pode ser delimitado na área doadora com moldeiras pré-fabricadas em forma de U, que correspondem à forma da maxila ou da mandíbula atrófica, ou em blocos bicorticais (raros), ou cortical e medular. O enxerto é remodelado e esculpido para melhor adaptação e fixação sobre a área receptora. E feita uma limpeza da área, coloca-se um dreno, geralmente removido no dia seguinte, e sutura-se plano a plano.
As complicações pós-operatórias estão relacionadas à quantidade de osso retirado, podendo ocorrer hemorragia interna com extensas áreas de hematoma e dor, penetração na área abdominal e lesões nas vísceras, e ruptura do nervo lateral femural cutâneo, o que provoca parestesia parcial ou definitiva da porção lateral da coxa e dificuldade no caminhar. Na intervenção posterior da crista ilíaca (paciente em decúbito ventral), pode-se seccionar a artéria glútea superior, provocando uma séria e extensa hemorragia, e, mais drasticamente, fratura do osso ilíaco.
Em geral o paciente fica internado de um a dois dias, iniciando os movimentos de flexão dos membros inferiores e caminhando já no dia seguinte ao dia da intervenção. (KUABARA et al. , 2000)

Tíbia

A tíbia é um outro bom doador de osso medular. Apresenta um segmento cortical pequeno e de até 40 ml de esponjoso, com baixa morbidez associada. No entanto, esta área é contra indicada em crianças e adolescentes porque é possível que ocorra o rompimento do centro de crescimento epifisário.
No que se refere à quantidade, tanto a tíbia como as regiões anteriores do ilíaco fornecem enxertos de volumes aproximadamente iguais, com quantidades maiores para os obtidos do ilíaco quando removidos da sua porção posterior.
De acordo com PINTO et al. (2004), quanto à qualidade dos enxertos obtidos dessas áreas, as corticais ósseas se apresentam visualmente e radiograficamente iguais. Entretanto, quando se avalia o osso medular da tíbia, este possui maiores volumes de gordura, apresentando assim um osso medular de qualidade inferior ao obtido da crista ilíaca.
No entanto, os enxertos retirados da tíbia, quando comparados aos obtidos da crista ilíaca, apresentam acesso cirúrgico mais simples, menores volumes de perda sanguínea, melhor conforto pós-operatório e menores complicações pós-operatórias. (PINTO et al. ,2004)
 

Calota Craniana

De acordo com KUABARA et al (2000), é uma área caracterizada por osso cortical e pouco medular. Tem a mesma origem embrionária que a mandíbula, membranosa. É indicada para a reconstrução de amplas áreas, e os ossos de escolha são o parietal e o occipital. A anestesia é geral, em ambiente hospitalar, e requer a presença de um cirurgião geral ou de um plástico, ortopedista, neurologista ou cirurgião de cabeça e pescoço, para a remoção do enxerto. A incisão é total até o periósteo ou pericrânio. A osteotomia é feita sob abundante irrigação com soro fisiológico, utilizando-se de brocas da série de 700 em baixa rotação, brocas de serra e cinzéis. Sendo que o limite da osteotomia, no sentido da profundidade, é determinado quando o tecido ósseo começa a sangrar, o que indica que a broca atingiu a parte medular.
O enxerto pode ser desenhado e esculpido em forma de U ou em tiras de blocos, e em seguida, remodelado, fixado e adaptado de acordo com o defeito ósseo. Consegue-se um pouco de osso medular aderido à parte externa cortical, e pode-se remover grandes quantidades de osso. A sutura deve ser retirada após sete a quinze dias.
Os riscos e possíveis complicações são bem reduzidos e há poucos relatos de complicações na literatura. (KUABARA et al. ,2000)
A calvária como área doadora apresenta altos índices de sucessos assim como o ilíaco com as vantagens de apresentar menor reabsorção e melhor pós-operatório pra os pacientes. (TUNCHEL et al. , 2002)
Segundo KUABARA et al (2000), pode ocorrer pequena hemorragia, controlável com secessão do ramo parietal da artéria temporal profunda. Sendo que pior seria a penetração na própria cavidade craniana durante a remoção do enxerto, o que levaria a danos irreparáveis.
Quando escolhido o osso da calota craniana, pela natureza densa da cortical, os implantes são colocados num segundo tempo cirúrgico de 6 a 8 meses após a realização dos enxertos e quando é usado osso da crista ilíaca, deve-se aguardar um mínimo de 4 a 6 meses. (FILHO et al. ,2001)
Havendo cuidado cirúrgico e preparo técnico, a calota craniana tornou-se uma área de acesso fácil e com grande quantidade de osso cortical disponível. O tempo cirúrgico é um pouco maior, pois geralmente a remoção do enxerto não é feita junto com o preparo da área receptora.
KUABARA et al (2000) relatam que a maior ressalva para a indicação dessa técnica está relacionada à aceitação pelo paciente, e não pela sua dificuldade técnica.

Fíbula


Apesar de sua cortical espessa, a fíbula tem-se mostrado uma boa opção nas reconstruções mandibulares. É uma excelente escolha para casos em que houve falha prévia de reconstruções e necessita-se repetir o enxerto.
Um dos fatores que pode levar à escolha da fíbula com área doadora extra-oral é a quantidade óssea disponível, já que esta permite grandes reconstruções de ângulo a ângulo (20 a 25 cm) em retalhos vascularizados e de até 9 cm em enxertos não vascularizados. Já os enxertos autógenos de crista ilíaca vascularizada atingem em torno de 8 a 10 cm (CUNHA FILHO et al , 2004). Além disso, tem com vantagens a baixa morbidade do sítio doador e é um enxerto de fácil obtenção. De acordo, com OLIVEIRA JR (2002) os índices de reabsorção do enxerto têm sido pequenos, com relação ao que se deveria esperar de um osso bastante corticalizado. Como desvantagem, o transplante não vascularizado de fíbula não pode sofrer muitas osteotomias para modelá-lo, pois se corre o risco de necrose dos fragmentos. Por outro lado, o retalho vascularizado da fíbula pode sofrer osteotomias para uma melhor adaptação ao contorno mandibular (sínfise mandibular) e permite a colocação de implantes.

Costela

De acordo com MISCH et al. (2000), a costela tornou-se um local doador menos favorável na reconstrução maxilofacial para a inserção de implantes. O risco de morbidez pós-operatória é relativamente alto. Os pacientes queixam-se habitualmente de dor durante a inspiração profunda e tosse, o que compromete o volume respiratório e predispõe o paciente à atelectasia. No entanto, o bloqueio do nervo intercostal e a anestesia local para infusão podem minimizar este problema. Outra complicação significativa é o dilaceramento da pleura com pneumotórax resultante, que requer a inserção de um tubo peitoral.
Já que a quinta, sexta ou a sétima costela pode ser normalmente usada para o enxerto para o aumento ósseo, a cicatriz cirúrgica é mais óbvia. O volume ósseo é modesto, com medula esponjosa mínima, comparando com a crista ilíaca; o formato e o contorno do enxerto são geralmente menos satisfatórios para o aumento para o implante. Além disso, o índice de reabsorção da costela foi considerado maior do que os outros locais doadores autólogos.


CONCLUSÃO

Os enxertos ósseos são considerados uma excelente opção para a reconstrução de rebordos atróficos que serão posteriormente reabilitados com implantes osseointegrados. O material de enxertia ideal é aquele obtido de osso autógeno, pois propicia uma neoformação óssea melhor em quantidade e qualidade e apresenta biocompatibilidade.
De acordo com a literatura, é possível concluir que as melhores áreas doadoras extra-bucais são a crista ilíaca e calota craniana. Entretanto, a tíbia, a fíbula e em menor proporção, a costela também aparecem como áreas alternativas para a obtenção de extensos enxertos ósseos.
Concluímos que, embora a literatura aponte a crista ilíaca e a calota craniana como as principais áreas doadoras, a escolha do local a ser retirado o enxerto dependerá da preferência da equipe multidisciplinar e das condições gerais e aceitação do paciente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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7. PETTERSON, L.S. Cirurgia oral e maxilofacial. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara - Koogan, 2000.
8. PINTO, Lécio Pitombeira; FERREIRA, Alexiy Gaspar Martins; OLIVEIRA, Henrique Teles Ramos de; CAUDEIRO, Fernando Santos. Reconstrução de maxila atrófica com enxerto de tíbia para posterior reabilitação com implantes osseointegrados: relato de caso clínico. Revista Brasileira de Implantodontia e Prótese sobre Implantes, vol.11, n.41, jan/mar, pag42-47,2004.
9. TOLEDO FILHO, João Lopes; MARZOLA, Clóvis; SANCHEZ, Maria del Pilar Rodrigues. Os enxertos e de bio materiais e os implantes osseintegrados. Revista Brasileira de Cirurgia e Implantodontia, vol 8. nº30, abr/jun,2001.
10. TUNCHEL, S et al. Enxerto de osso da calvária para reconstrução dos maxilares - A técnica através de um caso clínico. Revista Brasileira de Cirurgia da Universidade de Santo Amaro: UNISA, vol7, n. ½, pag78-84,2002.




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